Andar de bicicleta é algo complicado
Janeiro 18, 2012 at 3:14 pm | Blog, Vida | No comment
Na cidade onde eu morava, em São Bernardo do Campo pra ser mais exato, existe um bairro chamado Parque dos Pássaros, hoje analisando mais friamente o ocorrido acho que sei porque esse bairro tem esse nome.
Esse bairro era conhecido por suas ladeiras vertiginosas (sim “era” hoje tem um monte de obstáculos que pra você descer a rua tem que ser zigue-zagueando a 10hm/h), tanto que em uma dessas eu costumava andar de carrinho de rolimã, outro dia conto essa.
Nesta ocasião eu estava com meus amigos, todos com suas bicicletas (monark na época) cabulosas, cromadas, com pedaços de plástico preso na roda traseira pra fazer barulho de moto, tinindo de nova e eu com a minha imitação de bicicleta, era algo verde com uma garupa estranha, e fazendo barulhos que só um robo enferrujado poderia decifrar.
Todo mundo tinha descido as ladeiras mas eu (me cagando de medo) não tinha descido nenhuma, ainda, eu ficava brincando de corrida na reta e esperando os mais corajosos voltarem cantando suas vitórias contra aquelas ladeiras, até que em um momento de súbita coragem e um, claro, empurrãozinho dos amigos eu resolvi descer, e lá fui…
A descida foi bem rápida então vou tentar descrevê-la da forma como eu me lembro.
Primeiro estágio da descida (A Partida)
Tudo lindo, o sól brilhava forte, meus sentidos estavam atentos para as condições da pista, situação dos freios, equilíbrio, calculando o momento certo de usá-los e vencer aquela descida. Até esse momento tudo estava sob controle.
Segundo estágio da descida (A Burrada)
Até então estava percebendo que esse negócio de descida na ladeira era coisa de criancinha em teco-teco, eu já estava confiante demais e resolvi dar umas pedaladas mais fortes pra ganhar velocidade, o céu continuava lindo, a pista parecia um tapete, tava me sentindo um Alexandre Barros da vida e continuei pedalando
Terceiro estágio da descida (As coisas começaram a ficar sérias)
No momento em que eu peguei uma bela velocidade as coisas começaram a ficar estranhas, o guidão começou a tremer loucamente, parecendo que a própria bicicleta estava com medo da ladeira, mas não eu, eu estava era começando a perceber a burrada que tinha feito no estágio anterior, então resolvi frear…
Mas a adrenalina estava tão alta na minha corrente sanguínea e os freios tão ruins que o freio simplesmente começou a urrar como se eu estivesse espremendo uma pedra a um esmeril e o cabo do freio quebrou, fazendo quase o som de uma corda de violão estourando (foi bonito, pra não dizer trágico)
Quarto estágio da descida (A queda)
Nesse momento a pobre da bicicletinha ja tinha assinado seu testamento e embarcado no trem pro céu das bicicletas quando eu, sem freio e sem juízo, estava no meio da ladeira quase analisando o porque eu aceitei descer quela porcaria de ladeira, porque eu, mesmo sabendo das limitações da coitadinha resolvi forçar a barra com ela fazendo-a descer quele quase desfiladeiro em prol do meu orgulho ofendido até que ela se rebelou chacoalhando a roda da frente loucamente até encontrar uma pequena e singela pedra.
Quinto estágio da descida (As coisas estão fragmentadas )
O que me lembro desse momento era que naquele dia lindo de sol, eu diria que me tornei o próprio Einstein sobre a teoria da relatividade, porque parece que eu tinha pulado no tempo, não sei se pro futuro ou pro passado mas pareciam uns belos dias, não pelo tempo decorrido mas pelas visões que tive enquanto rolava no asfalto vendo sol, chão, sol, chão, sol, chão, sol chão e fui nesse movimento que eu tive aqueles devaneios de ver minha vida passando em frente aos meus olhos com um fundo semi transparente que mostrava ao fundo sol, chão, sol, chão, sol chão, até pude ver a própria bicicleta rindo de mim em sua caminhada para o céu das bicicletas….
Último estágio da descida (A conclusão)
Após acordar, pensar na besteira que fiz, perceber que a bicicleta “já era”, perceber que se o açougueiro me encontra ele adoraria me fatiar e vender em bifes já que estava em carne viva deitado, rasgado, naquele asfalto quente, só pude me levantar bater a poeira, pegar os restos mortais da bicicleta, jogar nas costas e subir a pé a ladeira e ir pra casa onde encontrei a minha mãe preocupada com os machucados, irritada por causa da bicicleta e com um riso sádico enquanto me ajudava a me lavar dos machucados que tive, rs…
foi hilário….


